Ninguém é mais detestado hoje, pelos chefes da cartolagem brasileira e pelos mandarins dos negócios do futebol no país, que José Hawilla, o J. Hawilla, superempresário do marketing esportivo e das comunicações, dono da empresa, a Traffic, cujo nome equivale a confissão.E ninguém é mais temido.Pego com a mão na botija por autoridades dos Estados Unidos, Hawilla comprometeu-se a restituir perto do equivalente a R$ 500 milhões e ajudar a investigação sobre crimes como fraude, lavagem de dinheiro e extorsão. O ex-jornalista controla também uma empresa sediada nos EUA.

Antigos camaradas agora o chamam de traidor.

Se os fatos correspondem às informações às vezes implícitas fornecidas pelo Departamento de Justiça, Hawilla foi decisivo na obtenção de provas de corrupção, talvez portando ele mesmo gravador oculto _ou levando suspeitos à arapuca de ambientes monitorados_ para registrar conversas comprometedoras. Como foi feita a gravação em que José Maria Marin trata de propina paga a ele e a Ricardo Teixeira? Seu interlocutor era Hawilla.

A operação desencadeada ontem com sete prisões na Suíça assustou figuras que ostentaram poder político e financeiro desde o começo da década de 1990. Gente que se cumprimentava, à moda mafiosa, com beijos estalados nas bochechas, como testemunhei em encontros da Fifa mundo afora.

À primeira notícia dos camaradas em cana, desatou-se o salve-se quem puder.

Há culpado com medo de ser acusado, e inocente temeroso de ser confundido com culpado.

O mais notório figurão ameaçado é o presidente da Fifa, Joseph Blatter. A entidade apressou-se em alardear apoio à apuração acerca de negociatas criminosas. A alegada roubalheira atingiu eventos controlados pela cúpula da Fifa, como a Copa do Mundo (alguém pagou para o Brasil receber o Mundial?). A luta de Blatter é para sobreviver, ainda que a Fifa com ou sem ele saia da crise como um conglomerado empresarial menor do que é.

Seu antecessor, João Havelange, assumiu nos anos 1970 e só largou o osso em 1998. O período derradeiro de sua era senhorial está sob o escrutínio de procuradores e tiras norte-americanos. Como se sabe por episódios comprovados e não comprovados, o veterano dirigente talvez tenha o que temer.

Na Suíça, Marin está vendo o sol nascer quadrado _se é que vê o sol nascer, e na hipótese de sua cela individual ter janela, de a janela ser quadrada e ser voltada para os lados do Leste. Veste pijama listrado?

Ricardo Teixeira, a quem Marin sucedeu em 2012, está solto. Costuma passar a maior parte do tempo em sua mansão de Boca Ratón, na Flórida (que enredo, Traffic, Boca Ratón…). Mas a investigação em curso flagrou Marin e Hawilla conversando sobre propina para o ex-genro de Havelange. Teixeira deixou a CBF e a Fifa pelas portas dos fundos, mas escapou. Agora, a depender das provas colhidas pelos investigadores no país que ele escolheu para viver, o perigo volta a rondar. A “Folha” publicou que Teixeira está no Rio.

O sucessor de Marin, Marco Polo Del Nero, foi rápido nas manobras para se desvencilhar do antecessor. Nota da CBF afirmou que “a nova gestão [da entidade], iniciada no dia 16 de abril de 2015, reafirma seu compromisso com a verdade e a transparência”. Nenhuma palavra sobre Del Nero ter sido o vice de Marin e de Marin ser vice na CBF, condição que foi cancelada ainda ontem. Em Zurique, Del Nero disse que os “contratos [suspeitos] foram firmados antes da administração do Marin”. Nada falou sobre renovação ou revalidação, já com Marin na cabeça, de compromisso comercial referente à Copa América, competição que teria movimentado dinheiro ilegal.

Mais grave, os “EUA indicam que Marin dividiu propina com Del Nero e Teixeira“, mancheta neste instante o UOL. Há menos de duas semanas, Walter Feldman, secretário-geral da CBF, escreveu que “o presidente Marco Polo Del Nero assumiu em 16 de abril pronto para dar uma arrancada modernizadora para o futebol brasileiro”. Agora deu para entender. Na correria para ocultar a proximidade, a fachada do prédio da CBF teve retirado nesta manhã o letreiro com o nome que o batiza, o de José Maria Marin. Limpar o prédio é fácil; o problema é limpar a história.

Outro antigo parceiro de Ricardo Teixeira e J. Hawilla, e que ainda mantém negócios polpudos com a CBF, é Kleber Leite. Sua empresa Klefer teve as instalações vasculhadas pela Polícia Federal ontem à noite. Kleber, como quase todos os protagonistas dessa história, aguarda para saber que informações o FBI acumulou. Por enquanto, joga-se sem muita ideia das cartas dos investigadores.

O contexto pré-eleitoral não é favorável para certos empresários e cartolas. Uma CPI para investigar o submundo do futebol tem de fato bons motivos para ser instalada. Mas não é só isso que aflige quem tem razões para isso. A iniciativa é do senador Romário, que ganha uma vistosa vitrine para reforçar sua imagem, às vésperas do pleito municipal do Rio. Talvez ele se candidate a prefeito no ano que vem.

A considerar o que foi divulgado até o momento, intermediários (como Traffic e Klefer) de direitos de marketing e de transmissão de eventos futebolísticos pagaram propina para cartolas-empresários. E não quem comprou, dos intermediários autorizados, os direitos. Isto é, emissoras de TV e fabricantes de material esportivo. Mas existe apreensão, ao menos na Nike.

Se J. Hawilla contando o que fez e sabe já resultou nisso tudo, imagina se Ricardo Teixeira topa uma, digamos, delação premiada.

O fantasma que acossa alguns cartolas e empresários tem nome: xilindró.

Ninguém quer virar Marin.

(O título da coluna é de responsabilidade do editor)Mário Magalhães, nasceu no Rio em 1964. Formou-se em jornalismo na UFRJ. Trabalhou nos jornais “Folha de S. Paulo”, “O Estado de S. Paulo”, “O Globo” e “Tribuna da Imprensa”. Recebeu mais de 20 prêmios. É autor da biografia “Marighella – O guerrilheiro que incendiou o mundo”.

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